Entrada Franca

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Praia de paulistano é shopping center uma ova

Em que pese a hamburguerização que rola na mídia, cuja lógica midieval é a do latifúndio cultural, com seus respectivos capatazes e jagunços eletrônicos, São Paulo não se encaixa facilmente nas embalagens padronizadas dos deliverys e drive-thrus.

Obviamente, quem olha só para onde aponta o guias do jornalões e as insuspeitas emissoras de tevê e rádio, naturalmente vai dar nas salas superlotadas dos cinemas, nas quais a pipoca custa mais caro que o ingresso e o filme é invariavelmente um hambúrguer norte-americano servido frio.

Porém, se você cai fora de uma praça de alimentação superlotada, como a do Center norte aos sábados e domingos, na qual o self-service põe na sua mão uma bandeja com a qual você vagará com o marido, namorado ou amante, pouco importa, por torturantes 10, 15 20 minutos, até a comida congelar, para achar uma mesa desocupada, pois então, se você cair fora dessa fria, descobrirá uma cidade quente de opções, porém não em escala de manada.

Na vila Medeiros, por exemplo, a dez minutos desse tumulto em que se acaba com a bandeja de comida fria sobre os joelhos, a comer na escadaria da praça de alimentação, há o Bar do Mocotó, situado à  rua Nossa Senhora do Loreto, o número eu não dou, pesquise quem quiser na internet ou clic no bendito nome, cuja culinária serve pratos típicos requintados e, se o freguês quiser, apimentados.

Ora direis, para plagiar o Belchior que plagiou o Olavo Bilac, o Bar do Mocotó está no Guia da Folha. Eu vos direi, no entanto, continuando a patacoada do plágio: Sim, mas meio escondido, afinal, não fica em um shopping e não tem estacionamento.

Pois é, quem deseja curtir São Paulo de verdade, tem que enfrentar a fera do incômodo em que ela se converte muitas vezes. Shopping center,  Carrefour MacQualquer Coisa .. . é tudo igual em todo lugar. Tão igual que, quando estive em Natal há uma carrada de tempo e bateu uma saudade doida de São Paulo, fui comprar biscoitos no Carrefour de lá e me senti de novo na Marginal do Tietê, onde há dois, um quase encavalado em cima do outro.

Outro dia, esse “outro” repicou do fundo do parágrafo anterior,  fui convidado para uma sessão de cinema no... Bar do João. Fica na esquina da Conselheiro Ramalho com a Rui Barbosa, Bixiga, pois sim. Segunda-feira fria... quase dei  no pé, fiz meia volta e toquei para casa, mas o ônibus superlotado me convenceu  da importância do cinema brasileiro, de modo que perseverei na minha luta cineclubista e, aquecendo a conhaque o meu motor raciocinante, fui dar no dito bar maldito.

Nele, os cineclubeastas Diomédio Piskator e Mário DJ tocavam curtas metragens a uma seleta plateia cheia de cineastas e técnicos da antiga e imorredoura Boca do Lixo, Boca do Cinema, para os íntimos, morta, sepultada e higienizada pelo atual prefeito, que gosta de gente limpinha.

Na rua Augusta, o Centro Cineclubista , com suas duas salas para 100 pessoas cada, escondidas da língua mal falante do latifúndio midieval, reúne mais de 10 cineclubes com programações específicas.

O Baixa Augusta, por exemplo, toda quinta-feira lota de cadeiras uma das salas para exigir, observem a sutileza do vocábulo, cinema brasileiro. O ciclo deste ano, vejam que chic: um ano inteiro de programação, é Literatura e Cinema.

No primeiro semestre, teatro adaptado por grandes cineastas, par citar um: Leon Hirzman. No segundo, romances adaptados para a tela grande. Tudo com debates documentados pelo cineasta João Brito, popular JB, do cineclube Kinopheria, que opera em Itaquera na surdina, mas que leva mais 300 pessoas ao Espaço Unibanco de Cinema para o lançamento do longa Botinas no Elevador.

Cascata? É só ligar para o dito cinemão e conferir. O pequeno lotou o grande ou, noutras palavras, o rato rugiu.

Teatro fora do coro dos contentes, então? Me dispenso de citar, pois há para todo gosto, em toda parte, desde que se encare essa fera, São Paulo, que não se entrega facilmente a ninguém, que ela não é dessas que vai com qualquer um nana nina nana.

São Paulo é uma cidade, de um ponto de vista muitíssimo específico, marota: manda os desavisados para os espaços óbvios e entrega seus segredos só para quem se dispõe a xeretar suas intimidades – vejam que linguagem ambígua e sediciosa está escorregando para dentro de meu texto.  Tudo bem, diz a cidade: pode xeretar à vontade, pero sin perder la ternura jamás!