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sábado, 11 de junho de 2011

Cineclube na escola

18/8/2004 

Vários obstáculos surgem quando se trata desenvolver o trabalho cineclubista em escolas, sejam elas públicas ou privadas, sejam de ensino Fundamental, Médio ou Superior, e o primeiro deles não é o equipamento. Em primeiro lugar a dificultar o arejamento do ambiente escolar com as tecnologias audiovisuais está o preconceito.

Existe disseminado na rotina escolar a idéia de que o emprego do audiovisual é o outro nome da "matação de aula". Esse preconceito tem razões de ser particulares, mas tem, digamos assim, outras motivações mais gerais.

Uma delas é o mau uso do audiovisual, seja por desconhecimento, seja por desorganização das próprias escolas.

A ausência de projeto para o emprego do audiovisual no ambiente escolar faz com que ele se torne remendo ruim para ações mal planejadas. Faltou um professor? Põe um vídeo para a turma ver. Professor tem de pôr em ordem o diário de classe? Passa um filme enquanto ele faz isso.

Essa prática é tão "manjada" que os próprios estudantes reclamam quando ocorre. Sentem-se justamente lesados — até porque os filmes empregados para ocupar esse tempo mal planejado são repetidos ao enjôo.

O resultado não pode ser outro: a desmoralização de um recurso espetacular para a ativação das práticas de ensino e para a dinamização do dia-a-dia da escola. Quando isso ocorre, e infelizmente ocorre sempre, o empobrecimento do pacto ensino-aprendizagem é geral.

A escola, quando não reflete sobre as tecnologias audiovisuais, e quando, por conseguinte, não as emprega produtivamente, põe-se ao largo de um processo de produção simbólica que inunda nosso cotidiano.

Na moradia mais pobre de uma favela, há um rádio e uma TV. Vídeo-cassete já não é novidade para ninguém, e mesmo o DVD já vai ficando com ares de superado - isso sem deixar de mencionar a democrática TV a gato.

Pois bem, nessa casa de periferia, em que muitas vezes falta o saneamento básico, o monitor da TV faz chegar todo o mundo contemporâneo com suas guerras, invenções, novelas, filmes etc. Por pior que sejam as notícias, as novelas e os filmes, é o hoje chegando instantaneamente de toda parte.

Ao entrar na sala de aula, o estudante que deixou em sua casa pobre na favela o aparelho de TV aguardando seu retorno, dá de cara com uma realidade ainda mais pobre. De equipamento, na sala não há nada, além de apagador, giz e lousa.

Obviamente que a ausência de equipamento é um impeditivo para o acontecimento do audiovisual na escola. Todavia, em escolas públicas ou privadas de grandes e médias cidades o pior é a ausência de projeto para o audiovisual: o vídeo e a TV estão lá, algumas escolas têm até mesmo projetor de multimídia... para tapar buraco de uma estrutura pedagógica conservadora, arcaica e ruim de improvisação.

Essa ausência de projeto para o audiovisual mal disfarça o conservadorismo de modelos burocráticos e autoritários, em que o formalismo das provas mensais e bimestrais coroa todas as ações fragmentadas de disciplinas isoladas.

É por isso que, sempre que surge em uma escola, o cineclube enfrenta resistências, causa tumulto e altercações. Sua simples existência só se faz possível satisfeitas condições mínimas de democracia, de liberdade e de dinamismo.

Quando um cineclube funciona em uma escola, ou tenta funcionar, o preconceito contra o uso do audiovisual se vai desfazendo e o que está por trás dele se vai revelando. E o que está por trás do preconceito, às vezes é a insuficiência do projeto da instituição, às vezes é o conservadorismo desse projeto.

Nos dois casos, a instituição condena-se ao século XIX ou a antes ainda, com seu giz, apagador, lousa e professor a esgoelar-se diante de uma turma insatisfeita, um a olhar para a nuca do outro como os acorrentados das galés.

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