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sábado, 11 de junho de 2011

Fora a invasão americana

12/12/2003

Historicamente o preço do ingresso de cinema girou em torno de um dólar, em razão de o cinema ser um entretenimento e uma atividade cultural popular, comparável, no caso brasileiro, com o futebol. Aliás, mais popular do que o futebol, já que as salas de cinema no país são aos milhares, enquanto que os estádios de futebol em condições decentes de atendimento ao torcedor contam-se nos dedos.

Porém, em ambos os casos, o preço dos ingressos são verdadeiro tapa na cara, e como o assunto aqui é cinema, fique para uma outra oportunidade e para um outro articulista a responsabilidade de responder por que os estádios andam esvaziados – até mesmo em clássicos hoje em dia vêem-se não poucos claros nas arquibancadas.

Levar filhos a uma sessão de cinema é uma atividade precedida por uma sessão de bofetadas. Cinemas variam de 10 a 20 paus por cabeça. Se o adulto tem carteirinha de meia, paga meia, mas as crianças, esquisito, não? pagam inteira, já que não são estudantes.

Quem tem três filhos leva, se estiver acompanhado do cônjuge, cinco sessões de bofetes que podem variar de 50 a 100 paus, a depender do Shopping – esse hamburger “in” do comércio varegista – fora o estacionamento, pipoca e o refri. Se for o casalzinho a vítima do assalto na bilheteria seguido de cala-boca na sala escura, então não sobra dinheiro pra namorar depois, o que explica um pouco a crise dos motéis.

Nessas condições não dá nem para dizer que cinema virou coisa de classe média, já que nem toda classe média dispõe dessa fortuna para assistir a filmes, na maioria das vezes enlatados americanos de qualidade não diria discutível, mas indesculpávell, que vai educando nosso público para a idiotice das perseguições de automóveis que invariavelmente explodem e para os closes em bíceps turbinados por outras tantas bombas.

Agora, fando baixo pra ninguém dizer que estamos fazendo intriga... É só o Iraque que está invadido pelos ianques?

As “majors”, as manda-chuvas do cinema, são tropas de ocupação e não tem bagana, não. Decretaram recentemente que o mercado brasileiro comporta no máximo 20 longas metragens/ano. E se fizer mais, que apodreça na prateleira, pois em nosso circuito exibidor, passa o que eu quiser assinado tio Sam, oh yes.

Certo tá o nosso ministro Gil coração do Brasil, que no encerramento do Congresso Brasileiro de Cinema foi pra bola dividida, com elegância mas pé-de-ferro, senão se quebra:

“Criar uma nova rede de exibição de cinema no Brasil, ampliando a participação do cinema nacional nas telas e, ao mesmo tempo, criando circuitos alternativos – utilizando as Casas de Cultura, as redes SESC, SESI, AABB, Sebrae, além de sindicatos, associações, etc.

Com isso, o MinC desejar levar cinema para a grande parcela da população brasileira que não tem acesso às salas de exibição. Enfim, "uma rede extensa e heterodoxa para vencer o complicado gargalo que o cinema ainda enfrenta no Brasil".”

É isso aí, mermão, e ninguém tasca. Criar uma infraestrutura nova é impensável, já que se trata de, a bem da verdade, inaugurar um novo ramo da economia audiovisual brasileira. Sindicatos, Universidades, UNE, entidades representativas etc. têm auditórios que, com adaptações – e uma grande parte nem isso – podem se constituir rapidamente em infraestrutura espetacular e em circuito ampliado para o cinema brasileiro e cultural.

Trata-se de uma visão estratégica para a indústria do audiovisual brasileira. Vale a pena saber o que pensa o nosso Ministro Gil coração do Brasil em seu recente discurso no lançamento do Programa Brasileiro de Cinema e Audiovisual:

“O caráter estratégico do audiovisual exige tratamento elevado por parte do Estado. Ele pressupõe uma reorganização institucional, incorporando a complexidade do setor e sua crescente interação em um mesmo mercado.(...)

“Chegou a hora de afirmar os nossos valores simbólicos, a nossa vitalidade econômica, o nosso projeto de país, plural e democrático, projeto este que não pode prescindir de mecanismos de ampliação do acesso do povo brasileiro à produção e à fruição de bens audiovisuais nacionais. Refiro-me aos brasileiros que não podem pagar ingresso de cinema ou que residem em um dos tantos municípios sem sala de exibição.”

Bão, e onde é que nóis entra?

Nóis entra no cineclube, geeente! Cineclube em sindicatos, cineclubes em centros acadêmicos, cineclubes em escolas secundaristas, cineclubes em associações de moradores, em acampamentos de sem-teto e sem-terra, em casas de cultura, em clubes da cidade, tudo bem pertinho do povo brasileiro, essa gente que leva o país nas costas e no coração.

É por isso que tem enorme importância a 24a. Jornada Nacional de Cineclubes, ocorrida em Brasília no mês de novembro, e tem importância ainda maior a que se realizará em São Paulo, capital, no segundo semestre do ano que vem, no bojo das comemorações dos 450 anos da cidade: trata-se de constituir um grande circuito cineclubista no país para que o cinema chegue às grandes massas da população que só conhece cinema de passar na porta.

E o novo cineclubismo considera que não basta assistir a um filme: é preciso discuti-lo e aprender a realizar: oficinas para a população aprender a documentar sua história local e sua identidade – o vídeo ta ái pra que? só pra filmar festas de aniversário e casamento? Aprendendo a manejar uma câmera de vídeo ou fotográfica, aprendendo a fazer projetos de documentários etc. é que se aprende a separar joio de trigo.

O Gil chamou de “circuito heterodoxo”, que tal chamar de circuito cineclubista? UNE, UBES, UJS, Sindicatos, MST, sem-teto, associações de moradores, universitários. Fora a invasão americana. Cineclubes mil, já! E todos à jornada de São Paulo.

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