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sábado, 11 de junho de 2011

Crítica ou dor de cotovelo?

29/9/2004

Jayme Monjardim, ao referir-se às críticas que vem recebendo em razão de seu filme Olga, deixa claro que entre elas e o público, ele fica com o último. E ele tem razão, ainda mais quando a crítica apela para a desqualificação — para uma parte dela, o que o diretor faz não é cinema, mas telefilme. Porém, esse comportamento de torcida de futebol não é privilégio dos detratores circunstanciais de Monjardim, sejam eles críticos ou não.

Existe um preconceito disseminado entre intelectuais e realizadores que beira a paranoia.

A coisa mais comum é um ator ser atirado escada abaixo em discursos irados em razão de trabalhar na Globo. O mesmo vale para diretores. Não são poucos os que consideraram Dias Gomes traidor por ter feito o que fez no campo minado da Vênus Platinada. E entre o pessoal de teatro já ouvi abobrinhas contra Guarnieri pelo mesmo motivo.

Outro dia, um cineclube de aposentados resolveu estudar o "Lisbela". Depois do filme e do debate, enviaram uma mensagem para um grupo de cineclubistas, na internet. Olha, não estou mentindo, não: menos de dois minutos depois, um grupo de realizadores caiu de pau no pessoal: "onde já se viu, cineclube exibir ator Global? Bando de alienados! Massa de manobra dos Marinho" etc. etc. etc. Não reproduzo tudo que havia nas mensagens desse grupo porque havia até palavrões. E não poucos. E dos superlativos.

Uma parte da crítica quer obrigar realizadores a criarem obras segundo suas receitas. Criticam a dos autores que lotam os cinemas, mas ficariam bem satisfeitos se as suas fossem seguidas servilmente, mesmo que se revelassem um fracasso de público.

A crítica muitas vezes tem birra não para com o artista que lota o cinema com sua estética, mas com o público, para ela incapaz de compreender finezas e sutilezas e outras "ezas" mais acadêmicas.

A linguagem é um elo entre o artista e o público, e ele fez uma opção de linguagem. O público que sua estética mobilizou é popular. Tem office-boy, estudante, metalúrgico, aposentado, dona de casa e povo de todo leque social assistindo ao filme e pouco se lixando para a dor de cotovelo de alguns iluminados que, o tempo todo, ficam a ditar regras de como se fazer filmes ou de como mergulhar nas profundezas psíquicas das personagens, combatendo o satã da rede Globo.

A verdade é que o filme de Monjardim está funcionando direitinho. E é popular. Talvez isso, mais do que qualquer outra coisa, esteja incomodando. Preconceito igual mata todo dia Jorge Amado, segregado das pesquisas acadêmicas mais doutas - mas ele insiste em renascer.

Muitas vezes me parece que a classe média não gosta de ver espaços, por ela considerados seus, tomados por essa gente que chora no meio do filme, pede para guardar lugar, vai ao banheiro lavar o rosto e volta para continuar vivendo a magia do cinema - muitas vezes, na maior inocência, confundindo realidade e ficção.

Se o filme de Monjardim parece televisão, qual o problema? Quem, com mais idade, não se lembra da cena espetacular, em Saramandaia, em que Juca de Oliveira liberta suas asas de anjo e sai voando como um passarinho? Era televisão. E se fosse cinema? Dava na mesma.

A verdade é que se o filme de Monjardim fosse um fiasco, os críticos estariam dando uma banana para ele.

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