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sábado, 11 de junho de 2011

Cineclubismo: caráter democrático

18/12/2005 

Pelas necessidades que visa atender e pelos fins a que se destina, a natureza das ações e práticas cineclubistas investem-se de caráter essencialmente democrático, e isso não apenas em resposta à diversidade de um povo mestiço como o brasileiro, mas também em socorro a demandas históricas da luta dos trabalhadores e de amplos setores da sociedade que almejam um regime política, social e economicamente mais justo e solidário.

Avesso a xenofobias, a intolerâncias raciais, étnicas, políticas, religiosas, a opressão contra grupos minoritários ou segmentos sociais específicos, o movimento cineclubista busca articular-se no interior de comunidades e entre elas de forma a aproximar o diverso e a estabelecer elos entre diferenças que propiciem convívio democrático e profícuo, que se não dispensa o princípio de unidade e luta, enfatiza entretanto a necessidade de vida gregária e da paz.

Dessa atuação intra e intercomunitária resulta a possibilidade de estabelecimento de unidades sociais maiores, mais complexas e mais ricas culturalmente, porque formadas pelo concurso voluntário das particularidades solidárias.

A natureza essencialmente democrática das ações cineclubistas frente à realidade traduz-se nos dias de hoje em práticas coletivas avessas a personalismos, e traduz-se também em ações tendentes à descentralização e à adoção de estruturas organizativas horizontalizadas, modulares, independentes e em rede, tecida voluntariamente pela anuência das unidades integrantes, nunca de cima para baixo, nem de mão única.

Isso equivale a dizer que organogramas verticais empregados em tempos passados – no mais das vezes como decalque ou caricatura de esquemas partidários mal interpretados –, que se esgotaram em função dos novos tempos e de suas próprias limitações, devem ser abandonados, porque servem a propósitos sectários, autoritários... e velhacos. No mundo da cultura, todos os lugares são o centro, e as associações são feitas por afinidade de projetos e não pelo pagamento compulsório de anuidades, ou pela ameaça de sanções ou de exclusão.

Essa natureza democrática de ações e práticas explicita o caráter político do movimento, que se articula e se solidariza com todos os demais movimentos sociais cujos fins se relacionam com a luta pela justiça social e econômica e contra o imperialismo cultural, responsável direto pela inanição do audiovisual nos países em luta por seus direitos de desenvolvimento e responsável também pela atrofia da produção cinematográfica brasileira em particular.

Dizer natureza democrática de ações é dizer pluralidade e diversidade de ideias, de projetos e de formas organizativas. Nos dias atuais, quem pretenda submeter o cineclubismo ou qualquer outro movimento cultural a estruturas rigidamente verticalizadas, mandonistas e fossilizadas comunga de ideologias sectárias e prepotentes, ofende a liberdade de organização e a tradição inovadora que sempre foi um manancial dos movimentos democráticos pelo mundo em todos os tempos, quem assim procede pesa sobre o futuro como um fardo de mau agouro, e o assombra como uma múmia que se recusa a permanecer no sarcófago.

Da natureza democrática de ações decorrem práticas necessariamente agregadoras, criativas, libertárias, em torno de idéias novas e transformadoras, voltadas para a justiça social, que situam o cineclubismo no mesmo leito e no mesmo fluxo dos demais movimentos reivindicativos e políticos orientados para a conquista de melhores condições de vida para os trabalhadores, em que os bens simbólicos se inserem com cada vez maior relevância.

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