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sábado, 11 de junho de 2011

Entre o que foi e o que será

17/11/2004
 

O texto a seguir foi escrito em parceria com Diogo Gomes dos Santos, Cineasta, membro da Coordenação Nacional do Movimento Cineclubista, editor da revista CineclubeBrasil, já faz alguns meses. Como no início de dezembro (1 a 5, na Galeria Olido) realizaremos em São Paulo a 25ª Jornada Nacional de Cineclubes, as reflexões nele presentes são úteis para que se entenda uma das visões entre as várias que se manifestarão com voz e voto na referida Jornada.
 

O momento vivido hoje pelo movimento cineclubista é prenhe de possibilidades e expectativas, e se é bem verdade que há uma rica e significativa história a nos preceder, também é verdade que, parafraseando Fernando Pessoa, a forma do futuro ainda não nos é dada, futuro que fica sempre para além da esfinge.

Desde quando iniciamos a rearticulação do movimento cineclubista, a questão da estrutura organizacional adequada ao novo momento se colocou em nosso caminho: “Decifra-me ou devoro-te”.

Como o que está para além dessa esfinge ainda é o segredo a ser desvendado por todos nós que estamos empenhados em reerguer o movimento, refletir sobre o que se estende para antes ajuda a iluminar o que poderá escondido para além dela.

Depois da Lei 5.536/11/68, que define o que é cineclube, foram editadas pelo então Conselho Nacional de Cinema – CONCINE – a portaria 30, que normatizava os registros dos cineclubes naquele órgão e a 64, que transferia para as Federações a responsabilidade jurídica sobre os registros dos cineclubes que não tinham registro civil, mas que existiam na prática. Para obter da respectiva Federação seu reconhecimento, bastavam ao cineclube comprovar que funcionava segundo princípios democráticos, enviar à Federação uma carta apontando três diretores, endereço e documentos pessoais de um deles.

Beneficiado pelas condições de época que algumas vezes obrigaram o regime de exceção a permitir em certa medida manifestações contrárias à sua autoridade, o movimento cineclubista angariou significativo reconhecimento por amplos setores, o que resultou em reconhecido destaque na formulação e na decisão da política cinematográfica brasileira, e na conquista de assentos no CONCINE, EMBRAFILME e demais órgãos oficiais.

Podemos descrever assim o organograma do cineclubismo antes da crise dos anos 90: uma pirâmide em cuja base se encontravam os cineclubes, entidades organizadoras dos militantes cineclubistas. As federações estaduais, órgãos representativos das entidades de base, constituíam a área média dessa pirâmide, e no topo dessa estrutura fortemente hierarquizada situava-se o Conselho Nacional de Cineclubes – CNC -, instância máxima de representação nacional.

Em nível internacional, existe o Secretariado da Federation Internacionale Des Cine Clubs - FICC -, para América Latina e Caribe. Essa instância funciona como elo de ligação entre a FICC e as entidades nacionais sob sua jurisdição.

Nos cineclubes votavam os associados, nas federações e no CNC, os cineclubes. Quando da fundação do CNC, votaram as Federações, e quando os cineclubes passaram a votar nessa instância, existiu-se a figura do voto por procuração.

Os estatutos do CNC e das Federações excluíam a possibilidade de existência de mais de uma entidade representativa por Estado e no Brasil, apenas um CNC poderia existir, segunda ainda essa estrutura, que foi formulado quando da reorganização do movimento, em fevereiro de 1973, durante as comemorações de aniversário do Clube de Cinema de Marília, em São Paulo, ocasião em que era outorgado ao melhor filme brasileiro exibido comercialmente o prêmio Curumim.

Sem sombra de dúvidas, essa estrutura rigidamente centralizada, verticalizada e hierarquizada expressa a visão e as práticas da corrente de pensamento majoritária no movimento, corrente à qual se deve, façamos justiça, o ressurgimento desse movimento que tanto contribuiu para resistência à ditadura.

Todavia, os anos 80 significaram para essa corrente uma década de sucessivos desastres, e era natural que tudo que fosse sua imagem e semelhança sofressem os abalos dessa crise. No caso do movimento cineclubista, some-se a isso o fato de não ter havido corrente que se oferecesse, consistentemente, como alternativa ao projeto em crise.

A crise modelo cineclubista, estreitamente ligada ao projeto da corrente majoritária em cuja cabeça caem os cacos do muro de Berlin, entra pelos anos 90 e é agravada pela implementação do projeto neoliberal de Collor. E o movimento entra num eclipse medonho, do qual só começa a sair recentemente: a 23ª Jornada Nacional de Cineclubes desse período realizou-se em Vitória do Espírito Santo (1989) e a 24ª, de rearticulação do movimento cineclubista brasileiro, em Brasília, ocorre somente 14 anos depois, em 2003.

Porém, diferente de 1974, quando primeiro foi reorganizado o CNC e depois os cineclubes, em 2003 o processo é inverso, rearticula-se o movimento e deflagra-se o debate sobre as formas de organização necessárias para a nova fase o movimento.

Aqui, já começamos a divisar as formas do futuro, nas palavras de Pessoa.

Muita água rolou por debaixo da ponte dos anos noventa e, quem diria, logo no início da década de 2000, Lula torna-se Presidente da República, Gilberto Gil torna-se Ministro da Cultura e o PCdoB e o PCB, antiga corrente majoritária no movimento, assinam nota conjunta manifestando intenção reunificação, superando um racha de mais de quarenta anos.

E bota água a rolar por debaixo dessa ponte: MST, Fórum Social Mundial, Fórum Social Brasileiro, internet, atentados contra as torres gêmeas, novas realidades tecnológicas do cinema, cinema brasileiro voltando com tudo, ou seja, um mundo a ferver. E é nesse caldeirão contemporâneo que estamos revigorando nosso movimento.

O movimento cineclubista, tal como todo movimento que corresponde a necessidades reais da sociedade, conta sempre com um grande contingente de iniciativas espontâneas, muitas das quais efêmeras. Invariavelmente os cineclubes surgem a partir de ações concretas de militantes cineclubistas, que muitas vezes nem sabem que o são. Organizar-se em grupo, elaborar estatutos, eleger diretoria, conselho fiscal e demais órgãos internos, providenciar sede, ou até mesmo um local fixo para desenvolver atividades, são ações que exigem alto grau de maturidade, que não se conquista do dia para noite, ações que ficam muito dificultadas quando feitas isoladamente, se articulação com um movimento mais orgânico e institucionalizado.

Ora, se estruturar um cineclube exige muita discussão, empenho, tempo de maturação, espírito de unidade que só se conquista no debate e no propósito de constituir um projeto coletivo, que dizer então das instâncias de representação em níveis locais e nacional?

Hoje, estamos premidos por muitas necessidades, duas das quais precisam ser respondidas conjuntamente, sem pressa, mas respondendo a prazos que muitas vezes não são estabelecidos pelos cineclubistas, mas pela realidade ou pelos órgãos públicos e de poder.

Dessas duas necessidades, uma é a de constituir formas organizativas adequadas ao novo cineclubismo que estamos a inventar, outra é a de ocupar espaços nos órgãos de deliberação do cinema brasileiro, o que só pode ser feito se estivermos juridicamente constituídos.

A primeira dessas necessidades pede tempo, a segunda, pede urgência.

Para responder à segunda com espírito prático, bastaria ressuscitar toda a antiga estrutura do movimento e assumir já os postos que essa estrutura possibilita. Todavia, como aqui apontamos, essa estrutura corresponde a um projeto que faliu na década de 1990.

Devemos ou não ressuscitar o Conselho Nacional de Cineclubes? Devemos ou não ressuscitar as Federações? O que é mais correto: a toque de caixa ocuparmos espaços de poder valendo-nos de uma roupa que não nos serve mais ou debater o movimento, realizar a crítica ao passado, promover seu digno enterro simbólico e ousarmos criar um novo projeto de cineclubismo, com objetivos de curtíssimo, curto, médio e longo prazos, com novas estruturas e novas formas de representação que garantam a pluralidade de manifestações em todas as instâncias do movimento, ainda que isso signifique alguns meses mais de maturação de opiniões e de busca de acordos com base no princípio de unidade e luta?

Da nossa parte apontamos a necessidade de constituirmos uma nova estrutura geral para o movimento, com teto mais alto, novos agentes, nova natureza, novos objetivos, novas formas de representação, emuladora deste novo movimento diverso e plural, podendo inclusive acolher em seu seio um novo CNC, com caráter de Instituto formulador de idéias, opiniões e de propostas de políticas públicas de cineclubismo.

Mas há uma discussão que precede ao do formato do movimento: é a que diz respeito à natureza do cineclubismo que pretendemos promover. O que é um militante cineclubista, essa figura humana sem a qual não há nem cineclube nem cineclubismo? Ele só atua em cineclube? Ele pode continuar a sê-lo no interior de uma instituição que não cineclubista? Se sim, em que instância do movimento ele vota? O que é um cineclube? Uma ONG que não exiba filme nenhum, mas pesquise o cinema brasileiro, ensine etc., pode aspirar o status de cineclube? Realizadores ou pesquisadores associados, podem se constituir enquanto cineclube? Um grupo que edita uma revista de cinema, é um cineclube? Um instituto voltado para a memória do cinema, pode aspirar as credenciais de cineclube?

O momento que estamos vivendo é o exato ponto entre o que foi o movimento e o que ele virá a ser: o que foi, por mais belo que tenha sido – e não foi sempre – nunca mais voltará a ser; e o que será depende das decisões que tomarmos, particularmente até a 25ª. Jornada, em São Paulo. Entre o que foi e o que será, a esfinge nos provoca: só passaremos se acertarmos as respostas para esses enigmas que listamos no parágrafo anterior e outros que ainda nem suspeitamos.

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