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sábado, 11 de junho de 2011

Vamos destruir nossos televisores a marteladas

4/5/2005  

Semana passada, em razão do artigo propositalmente ambíguo que escrevi para esta coluna, recebi uma avalanche de correspondências iradas, furiosas e esbravejantes. A algumas dessas mensagens falta senso de humor, a outras falta senso de realidade. Aos autores das primeiras, sugiro alugar uma fita d’ Os Três Patetas, de O Gordo e o Magro ou do Bob Esponja, que ensinam a gente a não levar a vida à ponta de facas. Aos autores das outras, respondo a seguir.

A segunda metade do século XVIII e todo o XIX europeu apresentaram uma situação sui generis, relacionada ao processo vertiginoso da revolução industrial, que consistiu na dramática falência das velhas estruturas econômicas feudais, atrasadas e rurais em favor do desenvolvimento acelerado das formas burguesas, industriais e urbanas.

O êxodo rural e o amontoamento de populações desprovidas de tudo nos becos de Londres, por exemplo, nas condições mais insalubres, e nas fábricas descritas em obras artísticas de época como verdadeiros infernos sombrios e tormentosos, fermentaram as primeiras revoltas de trabalhadores modernos contra a exploração desmedida desse período – que não poupava sequer crianças em mais tenra idade de jornadas estafantes mesmo para adultos.

As primeiras reações dos trabalhadores a essa situação, tão logo reuniram energias para moverem-se enquanto classe, foram irracionais, contrárias a seus próprios interesses e, no limite, mais reacionárias do que a própria exploração a que estavam submetidos.

Identificando no patrão imediato e nas máquinas a causa de suas penúrias, partiram para a destruição destas e, alguns casos, para o assassínio daqueles. Hauptmann, na Alemanha, tratou da questão em uma de suas peças mais famosas, Os tecelões.

Algumas mensagens que recebi a propósito do artigo sobre os 40 anos da TV Globo expressam indignação não pelo mérito do referido artigo, mas pelo fato de eu assistir televisão.

Ora, se combater a rede Globo pelas virtudes que ela incontestavelmente tem e não por seus defeitos, que são ainda maiores, é uma atitude obscurantista e profundamente reacionária, que dizer então do preconceito contra o próprio aparelho de televisão?

Isso me lembra uma aula que há tempos ministrei a uma turma do Ensino Superior particular de São Paulo, quando a propósito da literatura contemporânea citei casualmente a chegada do homem à lua.

Eis que uma aluna levanta-se, desvia-se da literatura como um foguete, põe-se a questionar o dito fato, a jurar de pés juntos que se tratava de uma farsa montada pela televisão e, em apoio à sua argumentação, dizendo pertencer a uma seita que se orgulhava, inclusive, de proibir os fiéis de assistirem àquela “janela do demônio”.

Na ocasião fiquei aturdido e, ante o irracionalismo manifesto, o melhor a fazer foi tomar o foguete de volta à literatura, excluída agora da alusão astronáutica, e por tabela das deletérias tecnologias audiovisuais. Constato agora que essa seita vem crescendo e já conta com adeptos mesmo entre comunistas, o que é de lamentar e mais ainda de pasmar.

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